
Por: Gilmar Castilho de Lima
A quantidade de índios em Sergipe no período do seu “descobrimento” é gigantesca, desde os Tupinambá, localizados em regiões próximas ao litoral, mais essa localização litorânea não é somente sergipana, na verdade os Tupinambá, estavam praticamente em toda a costa brasileira, e os Kiriri mais ao Sul de Sergipe, os Boimé, Kaxagó, Katu, Xocó, Romari, Aramuru e Karapotó ao Norte de Sergipe próximo ao Rio São Francisco. Na verdade os indígenas estavam sempre localizados próximos a rios, riachos, pois estes locais garantiam a pesca, e o peixe sempre foi um dos principais alimentos dos índios sergipanos. A relação dos índios sergipanos, com a natureza, pode ser denominada por um título atual, mais que contextualiza o período de antes dos colonizadores, que é o manejo sustentável.
Porque se falar antes do colonizador? Na verdade com a chegada do homem do “velho mundo”, especificamente o português, que vem imerso de seus valores culturais, tradições, com o seu “modo de ser”, e que influenciará, ou forçará com o passar do tempo a perca indígena dos seus valores culturais e a sua relação com a natureza.
Mesmo com tantas tribos, de culturas diferentes, línguas diferentes, localizações geográficas diferentes, o que não mudava era o respeito pela natureza que todos tinham. Afinal é dela que eles dependiam para viver: onde caçavam, pescavam, coletavam frutos e raízes. Porém com a chegada dos jesuítas em 1975, ao território sergipano, é que essa relação com a natureza será quebrada paulatinamente, sendo inserido, não de forma generalizante, o “senso utilitário” da natureza, aplicando a sua cultura, visto por outros como porta voz da “civilização”, mais que olhando com os olhos da atualidade e de forma critica eles estavam eram desconstruindo os valores que os gentios tinham com a fauna e a flora.
“... os primeiros jesuítas captaram a natureza na relação direta da necessidade que a existência terrena o exigia. Um mundo natural, onde tudo era útil, onde tudo poderia ser convertido, em prol da necessidade humana...” (Apud. Assunção, 2000, pág. 263-264).
Essa ruptura com os valores índio-natureza foi reforçada ou diminuída, com a “guerra justa” de 23de novembro de 1989 e 1de janeiro de 1990, onde as tropas de Cristóvão de Barros invadem o território sergipano, e começa-se ai a investida sobre os índios, onde saem vitoriosos mesmo em menor número, mais por terem ao seu favor armas potentes, o que facilitava a vitória. Muitos desses indígenas, morrem, fogem ou são escravizados, para servirem de mão-de-obra, ao novo personagem que tomará posse das terras antes indígenas, o colono, onde podemos citar, por exemplo, o grande “curraleiro” Garcia d’Ávila.
Essa relação com a natureza era variadissima, desde os rituais em agradecimento a chuva, ao sol, a colheita etc. até com a alimentação, a guerra. Inclusive alguns desses valores, permanecem no nosso cotidiano, como podemos citar o “beiju de tapioca” muito saboreado nos dias atuais nas mesas das mais variadas classes sociais, o jenipapo que em tupi-guarani, significa "fruta que mancha ou de fazer tintura, fruta que serve para pintar", fruta utilizada até hoje na produção de sucos, doces, e que também serviam aos indígenas como tintura para escurecer a pela e irem à guerra, entre outros usos. E essa idéia de se pintar antes de combates ainda pode ser visto nos dias de hoje, sendo citado o exemplo do Exército brasileiro, que pinta o rosto antes de um combate, e também em treinamentos nas florestas, não é mais uma pintura feita pelo jenipapo, mais que rememora muito bem esses valores dos rituais indígenas de guerra, impregnados quase de maneira invisível na atualidade.
Bibliografia:
DANTAS, Beatriz Góis. Os Índios em Sergipe. Textos para a história de Sergipe. Aracaju. 1991.
Souza, Antônio Lindvaldo. Índios em Sergipe
Souza, Antônio Lindvaldo. O português (criador de gado) e a colonização de Sergipe.
A carta de Toloza.
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